Ministro da Secom, que comandou estratégia que elegeu o petista em 2022, ficará formalmente fora da equipe responsável pela candidatura à reeleição; aliados afirmam, no entanto, que ele continuará opinando
Por Sérgio Roxo - Brasília
Considerado um dos ministros com maior influência no governo e responsável pela comunicação que elegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, o chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, ficará formalmente fora da campanha à reeleição. O líder petista, que deixou transparecer em reuniões internas recentes descontentamentos com o trabalho do marqueteiro, decidiu que o auxiliar não participará do dia a dia da candidatura e continuará a despachar no Palácio do Planalto. Aliados afirmam, contudo, que ele seguirá opinando sobre as estratégias eleitorais.
A exemplo do principal adversário de Lula, Flávio Bolsonaro (PL), que enfrentou uma crise na sua equipe de comunicação, trocada pela segunda vez no fim do mês passado, a campanha petista tem sofrido com as divisões internas. A guerra nos bastidores ganhou um novo capítulo na semana passada, com a saída do ex-chefe de gabinete da Presidência Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, da coordenação da campanha petista, após ser revelado que ele recebeu dinheiro da empresária Roberta Luchsinger. Pessoas próximas a Marcola apontam fogo amigo no episódio após a divulgação de informações sobre as reações de Lula ao saber do caso.
Até alguns meses atrás, Sidônio manifestava o desejo de deixar o cargo no Planalto para comandar a comunicação da campanha a partir de agosto. Lula, porém, descartou essa possibilidade, o que, segundo pessoas próximas, deixou o auxiliar incomodado. O ministro nega o desconforto.
- Estou aqui para ajudar o presidente e enfrentar a extrema-direita - afirmou Sidônio ao GLOBO.
Ao longo dos últimos meses, Sidônio enfrentou alguns desgastes com Lula. Paralelamente, se intensificou um embate entre os profissionais de comunicação que orbitam no núcleo mais próximo do petista. De um lado está Raul Rabelo, sócio do ministro, escalado para comandar o marketing da campanha neste ano. De outro, a jornalista Nicole Briones, mulher de Marcola, e o fotógrafo Ricardo Stuckert, que gerenciam juntos o Instagram de Lula, trabalham com o presidente há anos e estiveram ao seu lado durante a prisão em Curitiba, entre 2018 e 2019.
Estilos distintos
Sidônio costuma defender um estilo considerado mais festivo de comunicação, como descrevem alguns de seus críticos, enquanto Nicole e Stuckert são favoráveis a uma linha política mais dura de enfrentamento, com ênfase em temas econômicos ligados ao dia a dia da população. No começo do ano, por exemplo, o marqueteiro defendeu o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) como opção para ser o candidato de Lula ao governo de Minas Gerais. Lideranças do PT descartaram o plano devido à oposição do parlamentar ao partido e seu alinhamento ao bolsonarismo.
Anteriormente, o ministro havia causado mal-estar ao apresentar a ideia de criar uma secretaria vinculada à Casa Civil voltada à segurança pública. A sugestão foi apresentada a Lula como resposta à preocupação que o tema gerou na população após a operação policial mais letal da história do Rio, que deixou 122 mortos em outubro de 2025. O movimento foi um dos motivos que levaram à saída do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, do governo, em janeiro deste ano.
Além disso, episódios recentes aumentaram o desgaste de Sidônio no governo. Um deles foi uma discussão com Marcola na frente de Lula semanas atrás. Segundo relatos, o presidente reclamava com o ministro do tom considerado muito leve de uma peça publicitária produzida pela Secom. Sidônio contra-argumentou, e Marcola apoiou a opinião do chefe, provocando uma discussão entre os dois, que só foi encerrada com uma intervenção de Lula. O episódio foi revelado pelo jornal Folha de S. Paulo e confirmado pelo GLOBO. Sidônio nega ter havido bate-boca com o então chefe de gabinete e diz que tudo não passou de algumas diferenças de posição entre eles.
Em abril, Lula também cobrou Sidônio depois de receber um relatório de redes sociais que apontava que a imagem do presidente dos EUA, Donald Trump, aparecia muito mais no perfil oficial da Casa Branca do que a sua na rede social do governo brasileiro. Lula quis saber por que as publicações do @govbr no Instagram tinham tantos gatinhos e capivaras e não mostravam a sua própria imagem. O chefe da Secom argumentou que a lei brasileira é mais restritiva à exaltação do mandatário.
Os dois episódios, segundo aliados do presidente, exemplificam a insatisfação de Lula com Sidônio, o que teria levado o petista a excluí-lo do núcleo central da campanha. É considerado mais provável também que Sidônio não permaneça no governo em um eventual quarto mandato de Lula. Ele considera ainda, em conversas reservadas, que a sua missão se encerra em dezembro, apesar de negar qualquer desgaste na relação com o presidente.
Pessoas envolvidas com a candidatura à reeleição do presidente acreditam, porém, que, mesmo fora do dia a dia, Sidônio manterá sua influência, dada a sua proximidade com o núcleo baiano da campanha, que tem Raul Rabelo à frente. Internamente, o ministro admite que dará palpites, mas diz que o comando caberá ao sócio. Além de Raul, estão no staff da campanha Chico Kertész, outro sócio de Sidônio, e Tiago Cesar dos Santos, ex-número 2 da Secom.
Segundo aliados, porém, Lula já avisou em reuniões internas que Raul, que comandou o marketing da campanha presidencial de Fernando Haddad ao lado de Otávio Antunes em 2018, não deve recorrer a Sidônio para tomar decisões. O presidente disse que vai cobrar cada um por sua função e que não aceitaria duplo comando. Ainda de acordo com esses aliados, o presidente disse querer ter bem claro quem elogiar, cobrar e eventualmente ter que demitir.
Lula também demonstrou internamente irritação com os atritos dentro da coordenação de campanha. Pela linha acertada pelo presidente, a comunicação deve focar no confronto entre as gestões atual e de Jair Bolsonaro, na comparação das biografias do candidatos petista e de Flávio Bolsonaro e na defesa da soberania nacional em contraposição às iniciativas dos Estados Unidos.
Campanha de Flávio
Enquanto isso, na campanha de Flávio, a segunda troca do chefe da comunicação aconteceu 17 dias antes do início do horário eleitoral. A relação entre os publicitários Alexandre Oltramari e Eduardo Fischer e a campanha já vinha desgastada. Segundo interlocutores, os dois decidiram deixar a equipe após se sentirem frequentemente desautorizados e terem avaliações de que suas orientações eram ignoradas ou revistas por integrantes da campanha. Pessoas próximas aos dois afirmam que eles consideravam haver interferências constantes no trabalho e dificuldade para implementar a estratégia de comunicação planejada.
A mudança ocorreu pouco mais de dois meses após a última reformulação da equipe de comunicação. Fischer e Oltramari haviam sido chamados em meio à crise provocada pelas revelações sobre negociações entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme "Dark horse", em substituição ao marqueteiro Marcello Lopes, conhecido como Marcellão.
O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/08/10/apos-desgastes-no-governo-lula-distancia-sidonio-de-nucleo-da-campanha.ghtml





